Minha História no Kart

Por Marcelo Afornali

Quando garoto cresci ouvindo os mais diversos sons, como os estrondosos 4X1 das Honda 750 Four, a trepidante explosão do V2 da HRD Vincent e ou, a perfeita harmonia das maravilhosas BMW 1951 bicilíndricas boxer. Sempre soou-me como música, sempre gostei de ouvir motores e ver meu pai reconstituí-los do começo ao fim.

Interlagos ainda era o saudoso Interlagos com seus 8 mil metros, quando acompanhava meu pai para as provas motociclísticas entre 1979 - 1983. Era lá que eu escutava as maiores sinfonias daquele tempo: o som das Yamaha Tz's 350, que passavam pela reta rasgando a mais de 250 Km/h em seus belíssimos 14 mil Rpm's.

Foi assim que começou minha história com a mecânica, vinda de berço, pois meu pai foi piloto de motocicletas e motonetas entre os anos de 1959 - 1971, inclusive sagrando-se Campeão Sul-Brasileiro de Motociclismo em 1966 e Hepta Campeão Paranaense de Velocidade em saibro e asfalto, e sendo assim, não poderia dar outra: Paixão por Competição!!!

Acompanhei meu pai desde criança nas pistas, vendo motocicletas e carros de competição, mas quando vi o primeiro kart, aquilo sim me despertou paixão:

Foi em 1984, precisamente em Dezembro daquele ano. Pompeu Calicetti e alguns aficcionados, haviam construído um kart híbrido, que seguindo a tendência européia possuia câmbio, tornando-se algo bem mais próximo de um monoposto do que o próprio kart tradicional. Era apenas um chassi Mini da então categoria 250 Superkart de dois motores, com um motor Yamaha DT180cc acoplado em seu lado esquerdo, possuindo 5 ou 6 velocidades sequenciais e carenagem de fibra-de-vidro, em primeiro plano de 3 partes e nos anos seguintes, numa única peça.

O ano de 1985 foi interessante, pois meu pai firmou contrato como preparador da equipe Skol e acabamos por ganhar muitas corridas, inclusive um torneio de longa duração de três corridas, sendo cada uma de duas horas. Naquele ano, eu realmente aprendi a gostar do kart como esporte e sonhava sempre em correr naqueles pequenos monopostos, coisa que somente realizou-se uma década mais tarde.

Lembro-me que os dias felizes na pista, incluíam a vitória na etapa e minha "voltinha", com o motor engasopando é claro. Nem pensar em deixar o giro subir, já que o chefe da equipe era meu pai e escutar uma "bronca" dele, é o que eu menos queria.

No ano de 1986, a categoria estaria passando por reformulação e então foi criada a Fórmula 200, baseada num chassi Roma-Dap fabricado no Rio Grande do Sul pelo Sr. Romanello, sendo a motorização um Agrale de 200cc de 30 cavalos. Este foi o primeiro Fórmula 200 construído no Brasil, testado pelo ex-piloto de cross conhecido como Paraguaio e pelo Campeão Brasileiro de kart José Córdova. Após os testes iniciais, o carro foi levado a Lavrale no Rio Grande do Sul, recebeu um chassi Mini especial (mais longo e aperfeiçoado) e escapamento desenvolvido pelo meu pai, Danilo Julio Afornali, que foram usados até o fim da categoria aqui no Sul.

Infelizmente a categoria não pegou no Paraná de imediato, apenas em 1993 ela começou a se sobressair sobre os "ultrapassados" DT 180 Yamaha e seus chassi de Superkart.

Mesmo assim, a categoria Fórmula 180 como ficou conhecida, teve seus Campeonatos regulares entre 1984 até 1993, quando mesclou-se entre os karts Agrale, denominando-se Fórmula 200 e seguindo regulamentação nacional, à parte, os motores DT 180, os quais era permitido andar junto com preparo.

Como preparador de kart em conjunto com meu pai Danilo Julio Afornali e meu irmão Marco Aurélio Afornali, ganhamos vários títulos paranaenses, todos em categorias de câmbio como a Fórmula 180 e Fórmula 200. Entre eles destacam-se os seguintes:

Campeão Torneio de Longa Duração - 3 Provas de duas horas cada - 1985 - Pilotos Pompeu Caliceti e Flávio Trindade

Campeão Paranaense de Velocidade 1987 - Num total de 12 Provas, obtivemos todas as pole-positions, 11 vitórias e um segundo lugar devido a uma trinca no chassi - Piloto Carlos Ehlke

Campeão Torneio de Longa Duração -  1987 - Pilotos Carlos Ehlke e José Zattar Júnior  

Campeão Torneio Francisco Cunha Pereira 1987 - Piloto Tony Garcia

Campeão Paranaense de Velocidade 1988 - Piloto Tony Garcia

Campeão Paranaense de Velocidade 1989 - Piloto Tony Garcia

Campeão Paranaense de Velocidade 1990 - Piloto Marcello Fernandes Brasil

Campeão Paranaense de Velocidade 1991 - Piloto Marcello Fernandes Brasil

Vice-Campeão Sul Brasileiro de Velocidade 1994 - Piloto Nilton Pereira

Vice-Campeão Sul Brasileiro de Velocidade 1995 - Piloto Robson Ferraz

Campeão Paranaense de Velocidade 1996 - Piloto Marcelo Eduardo Afornali

O último campeonato oficial da categoria, deu-se em 1996, sendo o ano que realizei o antigo sonho: Correr um campeonato inteiro de kart, e acabei ainda sendo Campeão Paranaense do corrente ano.

Como meta de vida, era necessário abandonar a mecânica e voltar-me aos estudos, pois nunca se perde por saber um pouco mais. Entrei para a Faculdade e lá, desenvolvi um gosto já aparente, pois estudava História e com certa frequência, restaurava objetos de coleção, como motocicletas, bicicletas e até mesmo um Kart Mini quadradunho, que sempre tenho este em mente, como o primeiro veículo de coleção que refiz por completo.

Após os estudos e a especialização na área de História, optei pela sala de aula e paralelamente, acabei por montar uma página relacionada a restauração de bicicletas antigas, página esta que acabou por me tomar todo o tempo extra que possuía e mesmo, o tempo de professor, obrigando-me a optar por uma das profissões.

Decisão tomada, segui na área das bicicletas e desde 2002, venho resgatando a história sobre rodas, tendo mais de 300 exemplares reconstituídos para diversos clientes do Brasil e muitos trabalhos de caracterização feitos para a televisão (Rede Globo).

Neste ano de 2009, em uma visita a um depósito de material reciclável (nome elegante para Ferro-Velho), um kart estranho despertou-me a atenção e naquele instante o que havia sido esquecido durante alguns anos, voltou-me à memória imediatamente:

O espírito da competição, unido a preservação da História do kart no Brasil!

Comprei o kart no impulso e sem pensar duas vezes trouxe para casa, imaginando que conseguiria "reformar o pequeno" para apenas, dar umas voltinhas no fim de semana. Após olhar bem, resolvi pesquisar mais e fazer algo "correto" e focado na verdadeira história do veículo. Pesquisas e mais pesquisas foram feitas e a marca encontrada. A motorização foi encontrada também e bastava apenas, juntar as peças do quebra cabeça, para obter o resultado desejado.

Por fim, 9 meses passaram-se até a conclusão do projeto. Neste tempo em que desempenhei a restauração daquele kart encontrado no "material para reciclar", acabei comprando "outros doze", entre estes, Mini deitado, FBM, Rois Kart; Cox Kart entre outros.

Surgiu também a possibilidade de abrir uma nova página e desempenhar outra vez, um serviço importante para aqueles que gostam, cultuam e procuram informações sobre os karts antigos, por aqueles que ajudaram a construir o kartismo como conhecemos hoje, pois se temos hoje alto nível mecânico e tecnológico, deve-se ao desenvolvimento destes nos anos que se passaram.

E aqui começou uma nova era: O Museu do Kart!

Encontra-se você meu amigo, divindo todas estas informações com muitas outras pessoas que amam este esporte e que realmente, seriam capazes resgatar objetos tão valiosos à nossa cultura esportiva, à História do Kartismo no Brasil!

Seja bem vindo!

Museu do Kart - 2013
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